segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

MONÓLOGO - CECÍLIA MEIRELES

     Li este texto pela primeira vez em 1982, quando comprei um livro na banca de revistas. Dentre outros poemas e textos e da biografia de Cecília, neste livro havia um texto que me chamou mais atenção!. Impressionou-me a forma da narrativa envolvente e a capacidade que Cecília tem de poetizar fatos corriqueiros cotidianos, como: “...Mas é uma coisa ridícula (Oh! As ridículas coisas necessárias...)”; o humor negro de: “...É tão desagradável ter de alterar o programa dos nossos amigos, por precisarmos morrer!...”, dentre outros.
     Poucas pessoas conhecem este texto. Em pesquisa na internet não o encontrei, somente achei um  poema de mesmo nome.
     Digitei-o e agora compartilho com você.

     Segundo o crítico Darcy Damasceno, Monólogo foi publicado em 1946, na revista carioca Letras e Artes, constituindo uma das raríssimas peças de Cecília a que poderíamos chamar de conto. Esta pequena narrativa poderia se encaixar  no gênero policial, graças ao efeito de suspense criado pelo narrador. A própria vítima relata sua experiência, utilizando a primeira pessoa verbal.

MONÓLOGO
Cecília Meireles
    
     Quem é capaz de imaginar que o pó branco de um saco de papel, em cima da mesa da cozinha, não seja açúcar ou sal? Naturalmente, provei. Tinha um sabor acre e pegajoso. Pensei: deve ser algum desses adubos químicos que o Antônio traz para as beterrabas. Não consigo lembrar se cuspi ou engoli. Devo ter engolido. Fiquei com uma sensação adstringente na garganta. Mas não me incomodei. Andei cortando rosas. Fui ver o poço debaixo das laranjeiras. Não sentia nada. Passei mesmo um dia delicioso. Como é possível que aquilo fosse arsênico? Como é possível imaginar que se deixe um pacote de arsênico na mesa da cozinha? Nem me ocorreu que existisse no mundo arsênico em tanta quantidade. E que população de ratos há na granja para se ter de usar veneno aos quilos?
     De modo que estou envenenada. Antônio me disse, lívido, mas sem rodeios: “É um veneno terrível. Como é que você está viva?” E já me olhava como se estivesse falando com o meu fantasma. Talvez eu não esteja viva. Quem sabe? Antônio saiu no automóvel como um louco e terá de ir à cidade.procurar algum médico, algum farmacêutico. Antônio sente-se culpado. Se morro mesmo, vão pensar que fui envenenada propositadamente por meu marido. Ou vão supor que me suicidei por algum desgosto oculto. Preciso fazer já uma declaração: “Envenenei-me por engano, provando arsênico dos ratos”. Mas é uma coisa ridícula (oh! As ridículas coisas necessárias...).
     Procuro – e não estou sentido nada. São seis horas. Isso foi pela manhã. Como é possível estar-se morrendo há tanto tempo sem se saber? É verdade que estamos morrendo todos os dias, insensivelmente.. Talvez o bem estar do dia de hoje fosse já um efeito do envenenamento. Achei as rosas mais belas do que nunca, tão perfumadas que me estonteavam. Talvez fosse, da minha parte, uma excessiva excitação sensorial...
     Haverá no meu rosto algum indício? Não estarão as minhas pupilas grandes demais? Este brilho dos meus olhos não é o vidrado da morte? Não estão ficando frias as minhas mãos? Como será que se morre envenenado com arsênico? É preciso que eu sinta alguma coisa, uma vez que estou morrendo! Esta aflição no estômago deve ser plexo solar*. Não estarei apenas nervosa? Como é possível morrer-se tão sem dor? Então é assim que morrem os ratos? E como é possível que uma pitada de pó, uma pitada tão leve que mal lhe senti o gosto, possa pôr termo a uma vida, a um  corpo, a uma imaginação, a um mundo de sentimentos e pensamentos? Mas o Antônio disse que era um “veneno terrível”. Antônio estava quase morto só de olhar para mim. Devo, pois, estar envenenada.
     Mas há os contravenenos. Quais? Não sei. Onde está o Livro de ouro das famílias? Arreios, arroto, arsênico... Arsênico. Devo comer papas de mostarda, e beber azeiite, depois. Podia ser uma coisa mais fácil: água de sabão, clara de ovo... Mas logo papas de mostarda! Não há remédios, pois. Esperemos a morte.
     Agora começo a sentir lentamente a friagem subindo das mãos e dos pés. Decerto, quando chegar ao coração, terei deixado de existir. Sinto também uma cãibra tão grande nas pernas que se me quiser levantar já não poderei ficar de pé. E Antônio tão longe! O farmacêutico deve estar mexendo as papas de mostarda na sua cozinha, com um livro aberto na frente, como um sábio da Idade Média.  Mas tem de interromper as papas de vez em quando porque chega um menino e pede “duzentos réis de folha de malva!” Chega uma velhinha e implora: “O senhor tem remédio pra dor de ouvido?” E há um com reumatismo, e outro com um furúnculo.
     E justamente agora que tínhamos conseguido a granja, as flores e que tinha sido colocado o último tapete! E logo hoje,  quando tudo parecia mais calmo do que nunca! As roseiras em flor. A roldana do poço funcionando tão bem! As primeiras frutas deste ano aparecendo. Depois de amanhã é sábado, teríamos amigos para jantar. É tão desagradável ter de alterar o programa dos nossos amigos, por precisarmos morrer! Por termos de morrer contra a vontade, inesperada, imprevistamente!
     Nunca ninguém morreu assim (e estou ficando cada vez mais fria! E não me posso levantar daqui! E sei da gaveta – que perfumei com tanto cuidado! – onde está o meu suave, frouxo, mas quentíssimo cobertor!) E agora custa-me respirar. E Antônio não chega! E pra que chegar? Seria melhor que não me visse mais viva, que eu morresse enquanto está longe. Deve-se morrer sozinho – para que nos hão de ver morrer?
     Preciso apenas deixar qualquer coisa escrita. Mas talvez nem possa mover os dedos. As minhas mãos já não são minhas. Eu já não sou eu. E no entanto vejo tudo tão claro! E as papas de mostarda demoram muito, e Antônio está suando frio, do balcão para a porta, da porta para o balcão. O relógio vai e vem, vai e vem... E nos anúncios estão sorrindo as moças dos grampos americanos, as moças de papel – as felizes que nunca serão envenenadas por nenhum veneno!
     Também as moças de papel nunca terão sentido todas as coisas de que é feita a vida humana. Coisas tão enigmáticas como esta que me aconteceu. Esta é um enigma grande, que todos vêm, que todos comentarão, perguntando uns para os outros, daqui a pouco, amanhã de manhã, quando me virem morta: “Que estranho jogo de acasos paira sobre cada criatura!”
     Não passa pela minha cabeça nenhuma neblina. Lembro-me de tudo que fiz, de tudo que me foi feito. Começo a lembrar-me de tantas coisas, que o meu gosto de viver desfalece como o corpo. Ai de nós, se temporariamente não esquecêssemos! – Morreríamos só de lembranças... Estou vendo pessoas. Estou escutando palavras que foram dita há muitos anos, e se conservaram na atmosfera da memória, intactas, como quando apareceram. Estou vendo pessoas! – Ah, mas existem os campos vazios, as rosas e os cavalos, e o mar desabitado, que apagam, extinguem, cortam para sempre todos os rastros humanos! O que a memória ainda conserva suspenso, não tem mais nada conosco. Deve ser como as peças de museu: para instrução da  vida.
     Estou vendo grandes vitrinas. Eu mesma estou dentro delas, de vez em quando. Já não teria mais esses olhos, Já não choraria mais assim. Já não teria força para carregar tanta coisa em meus braços, em meus ombros, no meu coração. Disseram ao patinho branco: “Tu não és dos nossos. Que vens fazer aqui, espião, intruso, bicho de outra lei? Não queremos nem uma pena tua no nosso rancho”. E bicaram-no todo até sangrar.
     Arcanjo são Miguel, não quero colocar na sua balança nada disso, nada disso...Lembro-me apenas de ter salvo, há dezenas de anos, num fio de palha, uma formiga que se afogava... Mas não se ocupe comigo, Arcanjo são Miguel... Deve haver tanta gente, a esta hora, debatendo-se, rogando e rangendo os dentes... E estou tão calma...




*Plexo Solar: Também chamado cérebro abdominal, para os orientais, cuja filosofia tanto atraiu Cecília. O plexo solar seria o lugar do corpo gerador de energia vital.

Um comentário:

  1. Caio Graco Machado16 de junho de 2012 23:11

    Também conheci este texto em um livro da série "Literatura Comentada". Nunca mais o esqueci. A narrativa vai se tornando ansiosa e acaba com uma calma profunda.

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